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Wagner Moura fará o papel dos gêmeos em Dois Irmãos, a minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho, prevista para o ano que vem, na Globo. A minissérie é uma adaptação do romance homônimo de Milton Hatoum e se passa em Manaus. O ator fará os papéis principais, os gêmeos Yaqub e Omar, que se odeiam durante toda a vida (alguém leu Esaú e Jacó de Machado de Assis? Pois saibam que essa não é a única semelhança entre os dois romances).
Ao finalda introdução do famosíssimo Os cinco paradoxos da modernidade, (à venda na Estante Virtual) Antoine Compagnon pergunta: "O pós-moderno é o cúmulo do moderno ou o seu repúdio? O culto do futuro foi abolido? Estamos curados da superstição do novo?"
O livro é de 91 e Compagnon foi o "lanterninha de cinema" de muito estudante de letras e artes em geral (inclusive da autora deste blog), facilitando o caminho para quem já chegou no meio do filme. Quando decidi falar de nossa produção literária atual, só consegui lembrar dessas frases de efeito. Pois alguma coisa acontece na literatura brasileira. Não se pode chamar de "movimento" mas há um grupo crescente de autores cuja obra faz ressonância a uma literatura de - digamos - Flaubert e Machado de Assis.
Cadê a inventividade, a desconstrução das formas, o choque térmico? Os iconoclastas existem, mas parecem padecer no limbo dos "nichos" acadêmicos. Esqueçam a denúncia social de autores dos anos 50, ou a literatura das profundezas intimistas de uma Clarice Lispector (embora seja possível reconhecer aqui e ali uma certa linhagem dela em Adriana Lisboa), ou o Sertão metafísico de Graciliano Ramos, o que se vê é um modo de narrar que muito se assemelha ao realismo e ao seu apego ao dia-a-dia, ao jornalismo, à televisão, à internet.
O cinema, que havia sido ferramenta tão inteiramente renovadora para os escritores do Nouveau Roman (lembram? fiz um post sobre isso aqui), como Marguerite Duras, Robbe-Grillet e Beckett, agora é o contrato social do autor com seu público. Imaginário de reconhecimento e autoreferencialidade. E não à toa vários deles tiveram ou terão suas obras adaptadas para o cinema/televisão. Vamos aos nomes: Milton Hatoum, Daniel Galera, Cristóvão Tezza são alguns deles.
Apenas Milton Hatoum terá esse ano, além de Dois Irmãos para a televisão, duas obras adaptadas para o cinema: Relato de um certo Oriente e Órfãos do Eldorado. (ver matéria aqui).
É por ele que eu começo a série (nos próximos capítulos...).
Estava passeando pelas escandinávias quando o José Castello, da coluna A literatura na poltrona, do jornal O Globo, lançou a bombástica pergunta: "A crítica literária existe?". Explica o autor que a idéia lhe foi insuflada por um convite para participar de uma mesa de debates organizada pela "Oficina Cândido Portinari", em Ribeirão Preto (que todo mundo no Brasil inteiro deve saber o que é, menos eu. Imagino uma instituição tipo "A casa do saber", no Rio, batata - o Google deu o link acima).
Embora não concorde com José Castello (eu penso, sim, que a crítica literária existe, só que não está mais nos jornais), eu achei super legal o que ele escreveu da sua relação com a literatura que - UFA! , que alívio - ele reconhece não ser a do crítico literário. Mas...a de VIAJANTE literário. Eu me identifiquei na hora. Nós, blogueiros do mundo todo ligados em literatura, somos também como esse viajante que ele menciona, deixando para a efemeridade da web nossas impressões pessoais sobre os livros que lemos e amamos (ou odiamos). Cito:
"Será que nós, resenhistas, fazemos "crítica literária"? Será que os teóricos da academia fazem "crítica literária"? Quem são hoje os críticos literários? A resposta que venho arriscar, temerária, frágil, mas possível, é: a crítica literária não mais existe. Em meu caso particular _ foi o que tentei explicar em Ribeirão Preto _, desde que passei a ocupar, com muita honra, uma coluna do Prosa & Verso, não faço nem uma coisa (resenha), nem outra (teoria). Mas, então, o que faço? Costumo, cheio de temores, me definir como "cronista". Mas serei isso mesmo?
Escrevo, na verdade, "relatos íntimos de viagem", não a esse ou aquele país, ou continente, mas a determinado romance, ou livro de poemas. Leio (viajo) e depois, em minhas colunas, narro minhas impressões, falo dos pensamentos que a leitura me despertou, das associações que me motivou, dos livros que me levou a reler. Trabalho, eu sei disso, com um gênero híbrido _ que nem é resenha, nem é teoria, tampouco é crítica literária também. "
No post Por que tenho um blog explico um pouco essa relação vital e pessoal apaixonada com a literatura.
Afinal, sobre o traçado de José Castello do panorama atual da crítica literária, achei muito útil a separação que ele faz entre a resenha e a crítica especializada. Eu só lamento que essa crítica viva hoje de livros voltados para o meio acadêmico, longe do grande público, este vitimado por uma indústria da pseudo-literatura e dezenas de "novos" talentos e "prodígios" lançados todos os anos pela goela abaixo do leitor desprevenido. Ela não está nos jornais, mas ela existe, sim. Só que enclausurada na verbosidade acadêmica mofou e perdeu o jeitão para se comunicar com o público não especializado. Faltou o José Castello dizer: a crítica literária incompatibilizou-se com o jornal e este com ela. Foi divórcio consensual. E os leitores que sofram (ou criem seus blogs).
Antonio Tabucchi, apaixonado por Fernando Pessoa e autor premiado, vem filar o "almoço do príncipe" em Paraty
"Peguei o seu bilhete, entrei no mar e depositei-o na superfície da água. As ondas envolveram-no, e ele desapareceu de vista. Meu Deus, pensei por um instante com aquela palpitação de quando se assiste a uma despedida [...], vai acabar contra as rochas. Mas não. Tomou a direção certa, flutuando galhardamente na corrente que refresca o pequeno golfo, e desapereceu num instante. Tentei abanar a toalha para lhe dar tchau, mas você já estava longe demais. Talvez nem tenha se dado conta."
Desde 2008 ele ameaça visitar a Flip. Agora parece que vem mesmo. Uma grande presença! Embora não conheça a fundo sua obra (mais de 20 títulos), gostei imensamente do pouco que conheci.
Professor de literatura portuguesa em Pisa, na Itália, é especialista em Fernando Pessoa e responsável pela edição italiana da obra do poeta português. Eu o conheci em 2001, com o romance Réquiem, em que mistura Fernando Pessoa e personagens vivos e mortos, fictícios e reais. Ele também fez o interessante Os três últimos dias de Fernando Pessoa, em que o poeta recebe a visita de seus heterônimos mais importantes um a um, em que o próprio Pessoa é revelado como personagem ficcional (como possivelmente bem desejava o poeta, ser ele próprio livro de si mesmo).
Aqui, para quem sabe italiano, a versão do livro Afirma Pereira, de Tabucchi, com Marcello Mastroiani:
Mas o que mais me marcou foi Está ficando tarde demais, de onde saiu o trecho acima. O livro é um conjunto de cartas de amor de despedida, sem conexão entre si, em uma espécie de monólogo sem fim, em que os autores da carta fazem o balanço de suas vidas, buscam por socorro, choram suas saudades. Lindo, lindo! Alguém se anima?
Bibliografia de Antonio Tabucchi (foi o que eu achei em português):
O Fio do Horizonte
Noturno Indiano
Afirma Pereira (transformado em filme pelo diretor italiano Roberto Faenza, com Mastroianni).
Os últimos três dias de Fernando Pessoa
A cabeça perdida de Damasceno Monteiro
Sonhos de Sonhos
Réquiem
O jogo do reverso
Anjo Negro
Tristano morre
No Brasil
A Cosac Naify publicou a coletânea de contos premiada pela revista francesa Lire:
"Ce qui vient au monde pour ne rien troubler ne mérite ni égards ni patience".
René Char
"Aquele que vem ao mundo para nada perturbar não merece nem consideração nem paciência".
Enquanto o único livro (esgotado) que eu consegui achar de René Char em português na Estante Virtual não chega para eu poder dispor de ALGUMA tradução, vou falando um pouco sobre a vida deste ainda ( injustamente) desconhecido escritor para os brasileiros, possivelmente um dos maiores poetas da língua francesa.
René-Emile Char nasceu em 14 de junho de 1907, na cidade de L'isle-sur-la-Sorgue, filho de um homem de negócios e prefeito. A história do seu nome de família é curiosa. Seu avô paterno fora uma criança abandonada ao nascer e levada a uma instituição acolhedora, onde lhe deram a alcunha de "Charlemagne" (Carlos Magno), rei dos francos e posteriormente imperador romano. Mais tarde, ele acabou sendo batizado como Magno Char, fundando assim a marca do poético no próprio nome que carregaria seu neto René.
Desenho de Picasso em homenagem a Char. Fonte aqui.
Adorado por escritores atuais e seus respectivos públicos foi amigo de Paul Éluard, André Breton e Louis Aragon, com quem participou do movimento Surrealista, e diversos pintores e cineastas. Seus poemas foram ilustrados por Salvador Dalí, Miró, Kandinsky e Pablo Picasso, tendo este último trabalhado em parceria com ele a partir da ilustração para o poema de Char Dépendance de l'adieu (1936).
Desenho de Picasso para Dependance de l'Adieu (Dependência do Adeus). Fonte aqui.
Defensor combativo da liberdade de expressão artística e política, funda em 1930, aos 23 anos de idade, junto com Paul Éluard, André Breton e Louis Aragon, o periódico Le Surrealisme au Service de la Révolution e assina uma declaração em defesa da liberdade de expressão na obra de arte em resposta ao violento ataque ao Studio 28, em ocasião do lançamento do filme A Idade de Ouro de Luis Buñuel e Salvador Dalí, ocorrida em 1928. Na ação de inspiração fascista, os manifestantes invadiram o cinema, jogaram tinta na tela de projeção, destruíram obras de Dali, Max Ernst, Man Ray, Miró e Tanguy, rasgaram revistas e cortaram a linha telefônica, aos gritos de "fora judeus"!
René Char fotografado por Brassaï no seu quarto no hotel Lutèce por volta de 1952. Foto Biblioteca Nacional da França.
Durante a Ocupação na França, René Char, sob o pseudônimo de Capitão Alexandre, participa da luta armada na Resistência. A coletânea Feuillet d'Hypnos (Folhas de Hipnose) - de onde saiu a citação que encabeça este post - foi realizada nesse período e dedicada a Albert Camus. Trata-se de uma coletânea de aforismos e textos curtos. Antes da guerra, Char havia lido muito Heráclito (que lhe inspira escrever aforismos), Rimbaud e mestres medievais da Alquimia.
A título de pausa, deixo-os com uma das famosas frases de Char:
"Tu parles à un chien, il te regarde avec ses bons yeux. Tu t'adresses à un homme, il te mord."
"Tu falas a um cão, ele te olha com seus olhos atentos. Tu te diriges a um homem, ele te morde."
Vou continuar em outros posts.
Por enquanto, usei de fontes:
Prefácio de Yves Berger para a edição da Gallimard de 1967 de Fureur et Mystère.
Trechos do livro de Raymond Jean, René Char - un trajet en poésie.
Foto de Mia Wasikowska e Michael Fassbender, como Jane e Rochester, na versão 2011 de Jane Eyre, dirigida por Cary Fukunaga.
Mulheres, tremei!
Rochester vem aí novamente, saindo das brumas com o seu cavalo veloz e seu cão enorme. Daqui a poucos dias será a estréia mundial de Jane Eyre 2011, mais uma versão do clássico homônimo de Charlotte Brontë. Há um ano, no carnaval de 2010, enquanto a folia corria solta lá fora, eu me recolhi entregue aos DVDs, livros e à comilança (afinal, na minha casa já tem foliãs de sobra, movidas a Toddynho). Desse retiro, saíram, entre outros, os posts sobre as adaptações de Jane Eyre de 1944, conhecida como a "versão do Orson Welles", e a de 2006, da BBC. Eu havia lido o livro um pouco antes para um grupo de leitura e postado minha crítica sob o título Jane Eyre - a mulher-aranha.
Nele, sustento que, à semelhança de sua irmã Emily (autora também de outro clássico, Wuthering heights - "O morro dos ventos uivantes), Charlotte Brontë dota seus personagens de uma forte carga de magnetismo sexual, de inquestionáveis conotações sádicas, seguindo já um certo estereótipo da literatura inglesa (vide o caso de Lovelace e Clarissa, de Richardson). Essa foi, aliás, uma das minha implicâncias com o Orson Welles como Rochester na versão de 44. Enquanto Joan Fontaine estava uma Jane Eyre esplêndida (ainda que bonita demais como todos dizem, sim, ela estava ótima), ele parecia um deslocado Hamlet assombrado por fantasmas. E o pior de tudo: ele fez escola, Toby Stephens, na adaptação de 2006 adotou o mesmo estilo.
Mais dois excelente motivos para ver Jane Eyre 2011: DameJudy Dench , como sra. Fairfax, e o precocíssimo Jamie Bell, como Saint John.
Portanto, pelas imagens prévias, já achei que esta adaptação está fazendo mais jus a este aspecto (ou será que me engano? Só vendo o filme). Talvez esteja sendo levada pela crítica Kerin Durbin, que publicou texto na Elle americana proclamando que Fukunaga voltou à JE "original", sob o título "Fresh Eyre".
Óbvio que estou ansiosa para assistir a nova versão de Cary Fukunaga que, pelo o que eu pude notar nos trailers e comentários do diretor, adotou o tom gótico da versão de 44, quiçá ASSOMBRADA ainda pela estética de Orson Welles, que esteve presente no papel de Rochester e - dizem - OTRAS COSITAS MÁS...
Aqui abaixo, três entrevistas: uma com o diretor Cary Fukunaga, outras duas com Mia e Michael. Elas são de um blog sobre filmes de época.
E, por fim, um vídeo com a famosa frase de Jane à Rochester "você pensa que eu não tenho alma nem coração só porque sou pobre, obscura e simples"?
"Aleksiei Aleksándrovitch passara toda a sua existência a trabalhar nas esferas da administração pública, onde só lidava com os reflexos da vida. Toda vez que esbarrava com a vida real, ele a rechaçava. Agora experimentava uma sensação semelhante à de alguém que atravessa com tranquilidade uma ponte sobre um precipício e de repente se dá conta de que a ponte foi desmontada e que em seu lugar há uma voragem."
Li em diversos textos que Anna Kariênina seria um dos vários exemplos da atestada misogenia de Tolstói, fato que me deixou estupefata. Sim, Anna tem um triste fim (e há outros indícios que Tolstói apresentasse sinais do que hoje é considerado misogenia), mas alguém que tenha lido o romance sem essa idéia fixa na cabeça teria mesmo chegado a essa conclusão? Porque a minha impressão geral é que não há personagem mais sedutor, grandioso e indiscutivelmente vivo do que Anna Kariênina. Tal como Kitty e Vrónski, desde o início do romance, somos completamente absortos pela sua imagem, cada vez que Anna está em cena. A cada gesto, o jeito de andar, as roupas sóbrias, o olhar seguro, as palavras exatas: não há quem não se apaixone por Anna.
Dito isso, não é sem algum grau de simpatia que digo que Aleksiei Aleksándrovitch Karênin é o mais insosso, lamentável e medíocre marido-oponente desta série.
Helen McCrory, como Anna, e Kevin McKidd, como Vrónski, na versão de 2000 de Anna Kariênina para a TV britânica.
Como um dos objetivos de Tolstói era realizar uma oposição entre o campo - como lugar privilegiado - e a cidade - lugar das pessoas degeneradas - e que Karênin representa um dos ápices dessa degeneração: o homem burocrático (como é bem visível nessa citação acima), nada mais natural que ele seja assim condenado a uma existência compatível com a sua medicriodade.
Aleksiei Aleksándrovitch Karênin opõe-se à Anna Kariênina não apenas como marido, mas como ser humano. Enquanto ela existe, ou seja, é uma pessoa que respira, demonstra sentimentos, desejos e decepções, Aleksiei Aleksándrovitch é uma figura literalmente de papel. Feito sob medida para desempenhar com eficiência as funções de funcionário público, marido e homem da sociedade, Karênin esqueceu-se de como é ser um homem e até lhe incomodava a percepção de qualquer coisa que, segundo sua opinião, poderia torná-lo improdutivo, inseguro.
Há um livro de Hanna Arendt, chamado Eichmann em Jerusalém, em que ela descreve o julgamento do nazista, onde ela expõe sua teoria sobre a banalidade do mal. Aquele homem banal, medíocre, sem nada especificamente de grandioso ou mesmo monstruoso, atento às regras e à disciplina era a própria síntese do mal que aflige a humanidade. É possível que Tolstói tenha desejado traçar um retrato tão real quanto possível de um mal que ele já vislumbrava, que resultaria na degeneração da sociedade, sintetizado em pessoas como Karênin, tão desprovidos de humanidade quanto uma máquina.
Ficam aqui as palavras de Anna Kariênina, na tradução de Rubens Figueiredo, como reflexão sobre o assunto:
"Que homem torpe, ignóbil! E ninguém além de mim entende isso, nem jamais entenderá; e eu não consigo explicar. Eles dizem: um homem religioso, virtuoso, honesto, inteligente; mas não veem o que eu vi. Não sabem como ele sufocou a minha alma durante oito anos, sufocou tudo o que em mim havia de vivo, não sabe que ele nem por uma vez pensou em mim como uma mulher viva, que precisa amar. Não sabem como ele, a cada passo, me ofendia e sentia-se satisfeito consigo mesmo.[...] Mas o tempo passou e compreendi que não posso mais me enganar, que sou uma pessoa viva, que não sou culpada, que Deus me fez assim, com necessidade de amar e de viver."
(Anna Kariênina, Ed. Cosacnaify, trad. e apres. Rubens Figueiredo, p. 293)
"The name of Anne Elliot [...] has long had an interesting sound to me. Very long has it possessed a charm over my fancy; and, if I dared, I would breathe my wishes that the name might never change".
(Persuasion, Penguin Classics, 2008, p. 177 - William Elliot tentando a sorte em vão.)
"O nome de Anne Elliot [...] há muito que me desperta grande interesse. Há muito que ele fascina a minha imaginação; e, se me atrevesse a tal, exprimiria o desejo de que o nome nunca mudasse'.
Continuando a minha série que eu chamei de "Oponentes", gostaria de falar mais um pouco sobre esse que, para mim, é um dos "melhores" em Jane Austen: William Elliot. O primo das irmãs Elliot e herdeiro de Sir Walter Elliot entra no xadrez de Persuasão para dar uma remexida geral no tabuleiro. Ele não apenas se opõe ao protagonista, Frederick Wentworth, mas, antes de mais nada, a um personagem ausente da trama, ou melhor, que aparece unicamente na primeira página do romance, no verbete "Walter Elliot" dos Anais dos Baronetes: o filho natimorto, entre Anne e a irmã mais nova, Mary. William deseja ocupar o lugar deste filho: ser não apenas herdeiro de Kennlynch-hall, mas do próprio Sir Walter. Essa é a razão pela qual ele corteja Anne (e, ao que parece, Elizabeth, antes de Anne aparecer em Bath).
Em segundo lugar, William é oponente do próprio Sir Walter, uma vez que, se ele se casar novamente, pode produzir um herdeiro e lhe tirar, portanto, o seu direito natural. Essa é a razão pela qual ele corteja a sra. Clay, a possível pretendente de Sir Walter. Aliás, ela joga dos dois lados: qualquer um dos Elliot serve para ela, o tio ou o sobrinho, como bem observa Gillian Beer, no prefácio das edições Penguin. Ela cogita se seria esse o sentido do nome dela, já que clay (barro) sugere maleabilidade.
Anthony Head, como o vaidoso Sir Walter Elliot
Mas é a atração por Anne (a despeito das segundas intenções) que o faz cair na desgraça junto à Jane Austen, pois, como sugere a professora Gillian Beer, "talvez, a função do sr. Elliot como o causador do segundo envolvimento amoroso entre Anne e Wentworth é a razão do seu completo repúdio" (Beer, p. XXV), pois o leitor se identifica com ele pela escolha que faz de Anne, em detrimento de Elizabeth. Seguindo esse pensamento, a professora Beer pergunta: por que ele não poderia ser apenas o amante preterido de Anne? Para tirá-lo completamente das graças do leitor, Jane Austen decide não apenas apresentá-lo como um caçador de fortunas: ele termina sendo o canalha que deixou seu amigo se enterrar em dívidas até a morte e abandou a viúva deste.
Cena da versão de 2007com Sally Hawkins, durante o concerto em Bath, sentada ao lado de William Elliot: a felicidade está lá atrás!
Um detalhe curioso é que tanto a versão para as telas de 1995 quanto a de 2007 para a televisão usaram um recurso para unir Wentworth à Anne que a autora deixou em manuscrito, mas abandonou na versão final do romance: a cena em que Frederick é encarregado pelo Almirante Croft de informar à Anne que ele e sua esposa entregariam Kennlynch-hall ao pai dela, no caso de se confirmar o casamento entre ela e William Elliot.
Em resumo, a função de William Elliot em Persuasão é bem clara: aproximar velozmente Anne de Frederick. Este, ao vê-la praticamente perdida nos braços do primo, revive todo o amor do passado. Ela, ao receber uma atenção especial do primo e voltar a ter diante de si uma perspectiva que tinha abandonado há muito tempo: a de se casar e de se tornar legítima herdeira da mãe, adquire a auto-confiança e o brilho necessários para a reconquista do seu Wentworth. O interessante é toda a construção de William como um jovem sensato, um cavalheiro, excelente sobrinho e pessoa de bom senso (já que corteja Anne e não Elizabeth) é virada do avesso, como acontece com vários oponentes de Jane Austen.
"I have none of the usual inducements of women to marry. Were I to fall in love, indeed, it would be a different thing; but I do not think I ever shall. And, without love, I am sure I should be a fool to change such a situation as mine. Fortune I do not not want; employement I do not want; consequence I do not want; I believe few married women are half as much mistress of their husband's house as I am of Hartfield; and never, never could I expect to be so truly beloved and important; so always first and always right in any man's eyes as I am in my father's". (Editora Wordsworth, p. 67)
"Não tenho nada da propensão natural das mulheres para casar. Viesse eu a ficar apaixonada a situação seria outra; mas não creio que jamais ficarei. E sem amor eu tenho certeza de que seria uma tola em mudar uma situação como a minha. Não me faltam fortuna, nem ocupação, nem consideração. Acredito que poucas mulheres casadas sejam metade senhoras da casa de seus maridos como eu sou de Hartfield; e nunca poderiam esperar ser tão verdadeiramente amadas e importantes, sempre a primeira e sempre correta na visão de qualquer homem como eu sou na do meu pai".
Estava lendo Emma pela primeira vez quando, de repente, deparo-me com este trecho. E não foi o único!!!! Há inúmeras outras situações em que Emma explica tim-tim por tim-tim porque decidiu não se casar e enumera as vantangens que teria ficando solteira (ainda que, eventualmente, possa mudar de idéia no decorrer da narrativa). Afinal, se ela é rica, respeitada (e até mimada) pelo pai, dona da sua casa e mais dona do seu nariz do que a maioria das mulheres casadas, por que casaria? Eu confesso: fechei o livro de queixo caído, pensando, "como assim? essa autora não se dá conta que vive no século XIX"? Bem, então lembrei do episódio até hoje mal-explicado que Jane Austen foi pedida em casamento, aceitou o pedido para, no dia seguinte, voltar atrás e, assim como aspirava Emma, ficou invicta até a morte (que não tardou muito, inclusive).
Esse é um dos aspectos mais interessantes desta autora - ela explora realmente o íntimo feminino e está aí como ele de fato era em 1815: uma mulher, por ser dona de sua fortuna, de sua casa e, principalmente, do seu espírito e da sua mente, poderia perfeitamente optar por ficar livre do casamento - uma situação na época com alta probabilidade de ser opressiva e limitante para a mulher. Era Jane Austen uma espécie de revolucionária? Ou será que a imagem que NÓS FAZEMOS das mulheres do século XIX não condiz com a verdade e com a complexidade do período?
Apenas para situar a questão em parâmetros literários:
1. Emma, de Jane Austen, é publicado em 1815 na Inglaterra. O livro é dedicado ao príncipe Regente, com autorização do próprio.
A divina Isabelle Huppert, no papel de Emma Bovary com seu "Rodolphe", Christophe Malavoy, na versão de 1991de Claude Chabrol do clássico de Flaubert.
2. Madame Bovary é publicado na França em 1857 (42 anos depois). O retrato de uma bonita esposa de médico do interior, infinitamente mais inteligente que o seu marido, que busca a felicidade em amores clandestinos, abandonando o lar e a família, chocou. Seu autor, Gustave Flaubert e o editor do romance são levados a julgamento, acusados de atentado aos bons costumes. É em sua defesa neste julgamento que Flaubert profere a famosa frase "Emma Bovary c'est moi" (Emma Bovary sou eu), na tentativa de convencer aos presentes que se tratava de um personagem fictício de um romance. Ele é absolvido no julgamento.
Trecho (maravilhoso!) da abertura da versão de A Casa de Bonecas com Anthony Hopkins e Claire Bloom, de 1973.
3. Na Noruega, é publicado o drama A Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, em 1879 (64 anos depois de Emma). A história, que teria sido baseada em uma notícia de jornal, narra o caso de Nora Helmer, casada com um homem que menospreza o seu intelecto e a trata como uma boneca, até que descobre que ela havia forjado uma assinatura no passado para obter secretamente um empréstimo para salvá-lo. O choque de ambos é imenso - ele não a reconhece como sua esposa - um doce esquilinho, como ele a chamava - e ela não o reconhece como o seu marido devido à reação dele diante do caso. Afinal, Nora decide abandonar marido e filhos para seguir sua vida (ninguém sabe como). A peça causou tal comoção no público que há uma história de que em Oslo, os restaurantes da época colocavam placas em que se lia: "favor não discutir sobre a peça A Casa de Bonecas", de modo a garantir a paz no local. (Informação do fac-símile da revista Careta, de 1937, publicado no livro Henrik Ibsen no Brasil, organizado por Karl Erik Schøllhammer - aqui, entrevista dele sobre o livro).
Enfim, a pergunta que eu gostaria de refazer é: por que em Emma nada disso aconteceu, embora o livro tenha sido tão anterior a estes dois mencionados? Arrisco dizer que fez diferença o fato de que Emma não deseja abandonar marido e filhos, mas sim, deseja abandonar a IDÉIA de ter marido e filhos, o que torna tudo mais aceitável. O que seria uma punição para mulheres menos dotadas de beleza, fortuna e inteligência, torna-se para Emma um passaporte para a liberdade. Quem sabe todas nós devemos muito mais a uma Emma Woodhouse, que teve um final feliz, do que a uma Emma Bovary, que recebeu um fim trágico e Nora Helmer, cujo futuro era duvidoso.
E o fato de que tudo é dito sem causar escândalo só mostra a engenhosidade desta escritora (que, afinal, não tinha essa intenção mesmo). Sem mencionar que certamente a suposta inocência de Emma certamente contribuiu tanto quanto qualquer atitude revolucionária de outras heroínas para milhares de leitoras alimentarem desejos de liberdade.
Romola Garai, na última versão da BBC para Emma, com Jonny Lee Miller como Knigthley
Mais um post para o queridogrupo de leitura -Chá com Jane Austen - este é o livro do mês.
Em EmmaJane Austen faz uso de recursos já utilizados em livros anteriores, mas que demonstram um domínio muito maior da autora sobre a linguagem.
Só para recordar, a ordem de publicação dos romances de Jane Austen é a seguinte:
1. Razão e Sensibilidade (1811)
2. Orgulho e Preconceito (1813)
3. Mansfield Park (1814)
4. Emma (1815)
5. Northanger Abbey (1817 - postumamente - foi na verdade o primeiro romance que ela escreveu)
6. Persuasão (1817 - também póstumo)
No decorrer da história, o leitor é apresentado a três níveis de encenação - há a narração da história em si, em que os diálogos revelam boa parte do enredo; há o uso da terceira pessoa (discurso indireto), presente em vários romances de Jane Austen, que acompanha a reação de cada personagem diante do que nos é dito. Estes dois níveis de informação - os diálogos e a narrativa em terceira pessoa - são, em muitas ocasiões, ou complementares ou mesmo opostos entre si. Para completar, o uso de monólogo narrativo, amplamente usado em Emma (ele já aparecia com freqüência em Mansfield Park) completa a narrativa justaposta do livro.
Filme de 1996, dirigido e escrito por Douglas McGrath, com Gwyneth Paltrow como Emma e Jeremy Northam como sr. Knigthley
O conjunto forma um todo que apenas ao leitor é disponibilizado, criando uma espécie de cumplicidade entre nós e a autora.
Versão de Emma de 1996 para a TV, com Kate Beckinsale como protagonista.
Dando um exemplo bem prático, na cena em que o sr. Elton tenta convencer Emma de pintar o retrato de Harriet, a narrativa caminha por caminhos diversos em cada caso:
1. Nos diálogos entre Emma e o sr. Elton, nota-se que este deseja lisonjear a sua interlocutora, além de criar uma atmosfera de intimidade, fazendo uso de um aspecto prático e realizável que não o poria em risco de ser rechaçado - uma vez que sua investidas são indiretas e totalmente plausíveis (na direção de Harriet) e tampouco de ser considerado indelicado.
2. Emma, por sua vez, em seu monólogo interior, reflete o quão ridículo e despropositado o sr.Elton é, uma vez que demonstra, pelos seus próprios argumentos a favor da pintura a ser feita que não compreende nada de desenho. E ironicamente conclui (em pensamento): "guarde suas rapturas para o rosto de Harriet".
Porém, quando fala, Emma responde no mesmo tom do sr. Elton, tirando igualmente proveito da situação para elogiar as feições de Harriet e assim concordar com o pedido dele, fazendo-o erroneamente acreditar que o está encorajando.
3. E, por fim, quando Harriet retorna, a narrativa segue em terceira pessoa, mostrando a total submissão de Harriet às manipulações de Emma e do sr. Elton, além de reafirmar a superficialidade de Emma através da sua incapacidade em finalizar seus desenhos, assim como a de seus interlocutores, incapazes de enxergar neste ponto a grande falha da desenhista, corroborando uma visão defeituosa e parcial tanto de Harriet quanto do sr. Elton, embora por diferentes motivos.
Paltrow e Northam na pele de (a meu ver excelentes) Emma e Knigthley - aliás Jeremy Northam é um ator memorável, quem assistiu Gosford Park (2001), do meu (amadíssimo) Robert Altman e, mais recentemente, a série The Tudors, em que ele fez Sir Thomas More realmente há de reconhecer...
Seria essa superposição de diferentes níveis de narrativa uma piscadela com as charadas, jogo tipicamente da sociedade da época e tão apreciado pela protagonista, em que o leitor teria que estar atento a todos os detalhes, pois eles são significativos para se apreender o sentido final de cada episódio? O fato é que ao ler Emma a gente tem a nítida impressão que este foi um livro em que Jane Austen se divertiu horrores ao escrever.
Há um outro aspecto interessante em Emma sobre o qual eu gostaria de falar em um próximo post, que diz respeito mais às condições sociais da protagonista, uma vez que ela é a única heroína de Jane Austen que NÃO PRECISA e NÃO DESEJA se casar.
"À la moitié du chemin de la vraie vie, nous étions environnés d'une sombre mélancolie, qu'on exprimée tant de mots railleurs et tristes, dans le café de la jeunesse perdue."
Guy Debord
("Na metade do caminho da vida verdadeira, nós estávamos envoltos por uma melancolia sombria, expressas por tantas palavras de escárnio e tristes, no café da juventudo perdida").
Os franceses têm um orgulho bastante particular sobre três itens da sua cultura: a gastronomia, a moda e literatura. Ganhar o título de "melhor romance" da revista-ícone da literatura daquele país - a Lire - é um mérito equivalente a um brasileiro ganhar o título de melhor jogador da FIFA. Um prestígio descomunal, uma popularidade ímpar, um talento mais que comprovado. Afinal lá, o número de leitores de romances É MAIOR que a torcida do Flamengo!
A minha "Semana Modiano" (que já está virando "Mês Modiano") atrasou tanto que deu tempo não apenas de eu ler aquele livro que estava na minha mesinha de cabeceira desde 2008 - Le Café de la jeunesse perdue (O Café da Juventude Perdida), o penúltimo do Modiano, mas também outros dois: Accident nocturne (Acidente Noturno) e Un cirque passe (Um circo passa).
Pois bem, segundo a premiação anual concedida pela Lire em 2007 e o Leitura das Marias nos informa, o melhor romance do ano traz as marcas modianescas ao cubo: busca da identidade, tentativa de reter o passado, uma espécie de presente opaco, um futuro (transformado em presente da narrativa) desiludido. A incomunicabilidade. Este blog das Marias que falei há pouco traz um dos melhores resumos que eu achei na internet, além de a vantagem de ser em português. Aliás, a Maria Manuel me fez a gentileza de enviar uma dica de site onde comprar a edição portuguesa do livro - o Wook - obrigada, novamente!
O título é retirado de uma frase de Guy Debord que é citada no livro (e no início deste post) e faz parte do roteiro In girum imus nocte et consumimur igni & Crítica da Separação (p. 51). E que, por sua vez, remeteria a uma frase da Divina Comédia de Dante: "No meio do caminho de nossa vida, eu me reencontrava em uma floresta escura pois a vida reta estava perdida".
Para mim, essa é a frase que se lê de fundo nas várias linhas narrativas. O livro fala dessa perda irrecuperável, da separação entre o indivíduo e a sociedade. É certamente um dos romances mais completos de Modiano sobre a incomunicabilidade. Os personagens trocam palavras entre si mas nada dizem, nem uns aos outros, nem a si mesmos. Na verdade, a heroína central, "Louki" ou Jacqueline, ou Louise du Néant (Louise do Vazio) talvez seja a única que perceba este fato de modo muito claro. A separação entre ela e o mundo é inevitável, intransponível. Só resta se atirar neste grande vazio - ou fugir.
Lugar simbólico da fuga, o "Café Condé" traz também um outro aspecto surpreendente: uma certa nostalgia. Nos vários narradores - o livro é contado em primeira pessoa do ponto de vista de diversos personagens - nota-se uma certa visão esperançosa em relação ao passado. Como se nele estivesse a chave de algum fracasso, e que, portanto, ao encontrar esse "ponto zero" da cisão um certo futuro poderia ser possível.
Um livro profundamente atual, apesar de se situar nos anos 60. Tocante e simples como muitos escritos desse autor excepcional.