Foto: Robert Lubanski - site aqui.
Dando prosseguimento à série intitulada Nossos contemporâneos , continuo com mais um post sobre o autor amazonense Milton Hatoum (o primeiro pode ser lido aqui).
"Shall memory restore the steps and the shore, the face and the meeting place."
"Restaure a memória os passos e a praia, o rosto e o ponto de encontro." (trad. livre e mal-ajambrada da autora, o original rima).
(Wistan Hugh Auden)
Com esta epígrafe, o autor amazonense Milton Hatoum já desvela o tema principal do romance Relato de um certo Oriente (Cia das Letras, 1989): a memória e suas reverberações na construção da identidade ou, no caso, das múltiplas identidades dos vários narradores dessa história. Embora tenha uma narradora central, que começa e termina a história, uma mulher que volta, após 20 anos de ausência, à sua terra natal, na ocasião da morte da sua mãe adotiva, o romance é, na verdade, uma coletânea de relatos de outros personagens, todos siderados pelo desaparecimento da matriarca Emilie, figura nuclear da família e da narrativa.
A história se passa em um lugar "que seria exagero chamar de cidade. Por convenção ou comodidade, seus habitantes teimavam em situá-la no Brasil" (Relato...p.71) Esse lugar distante de tudo, espécie de faroeste onde estrangeiros de vários cantos do planeta vão buscar a prosperidade e constituir uma urbanidade babilônica provinciana, é a cidade de Manaus, terra natal do autor. Ponto de encontro dos diversos narradores.
Essa "Xerazade cabocla" vai revelando aos poucos para o leitor os dramas íntimos de uma família de imigrantes libaneses que se estabeleceram na cidade de Manaus, unindo-se e confraternizando com outros imigrantes de outras origens, ainda que mantendo a língua natal dentro de casa. A despeito da convivência próxima entre ela e essa família adotiva, o que se destaca no romance - assim como ocorrerá em outros romances do autor - é a impossibilidade de comunicação entre as pessoas. Só uma narrativa múltipla poderia, portanto, dar conta de uma realidade que é também multifacetada, assim como um mosaico (apenas para usar outra referência árabe, além da que vem sendo muito citada sobre o livro de "tapeçaria"), as diversas histórias vão se encaixando para constituir não um todo, mas um conjunto de cacos dispostos ao leitor no tom amargo e introspectivo da memória pós-traumática. Pois, o que chama a atenção, em todas as narrativas é a quebra de uma unidade, um momento-chave em que o que era encaminhado de um modo retorceu-se ou quebrou-se, em suma, nunca, jamais poderá ser resgatado. Um livro curioso e, na minha opinião, o melhor de Hatoum. Mas...vamos averiguar as outras obras e os leitores do blog sintam-se à vontade para contrapor opiniões divergentes
Eu havia esquecido de contar que esse livro ganhou o prêmio Jabuti de melhor romance,acho que foi um ato falho, depois da polêmica da premiação envolvendo o Chico Buarque (eu fui uma das signatárias que pediu que ele devolvesse o prêmio).
Aproveito a deixa para divulgar uma resenha muito boa do livro do blog Peregrina Cultural, da Ledyce que, aliás, merece uma visita detida, pois é excelente.