Esse post é uma revisão do que eu enviei para o grupo de leitura Chá com Jane Austen.
Considero a Fanny Price (juntamente com Anne Eliot) uma das mais curiosas personagens de Jane Austen, injustamente mal-vista. Isso porque Fanny representa as três qualidades que Jane Austen demonstrou prezar em seus romances anteriores, embora de maneira difusa e oblíqua, ou seja, criticando o fato de as heroínas não possuírem tais qualidades, submetendo-lhes a algum sofrimento profundo em seus destinos por falta delas (coisa que ocorreu com Marianne Dashwood e QUASE aconteceu com Lizzy Bennet - ela é literalmente salva por Darcy):
1. Ela vive no mundo real, não alimenta sonhos (mas esperanças, o que é substancialmente mais realista) - nesse aspecto sua antítese pode ser Marianne Dashwood,
2. em sua defesa, ela faz uso, sem exceções, de três estratégias: a razão, a tenacidade e a calma - nesse segundo aspecto, sua antítese seria claramente Lizzy Bennet que, com sua impetuosidade, ousadia e linguajar desenfreado (defeito que a própria Lizzy reconhece, embora o atribua à falta de zelo paternal), quase põe tudo a perder (salva, como disse antes, pelo Darcy, em reviravolta romanesca bastante rocambolesca, havemos de convir),
3. ela preza, acima de todas as benesses do mundo, pela verdade pura e sólida, ao contrário, eu diria, de todas as anti-heroínas, tais como a própria Mary Crawford, as duas irmãs Steele - em particular, Lucy Steele (que troca Edward Ferrars pelo irmão deste, em R&S), enfim, de tantas outras volúveis, cuja guia-mestra muda conforme o vento. Essa é, inclusive, a principal causa de ela recusar tão peremptoriamente a oferta do charmoso Henry (além de estar com o coração tomado por outro, mais constante).
As irmãs Steele (quem nunca conheceu uma delas na vida real?)
Essa terceira característica de Fanny, a meu ver, a torna uma personagem quase MASCULINA (embora fosse possível que Jane Austen considerasse essa afirmação ofensiva). Dito de outro modo, ela se aproxima de personagens masculinos sólidos, como Edward Ferrars, Colonel Brandon, Henry Tilney, Edmond Bertram, etc etc. Considero essa personagem um marco porque antes dela, havia praticamente apenas personagens masculinos com essas características.
Abaixo, imagens dos precursores de Fanny Price, todos enfadonhamente fiéis: Colonel Brandon e Edward Ferrars(de Razão e Sensibilidade ) e Henry Tilney, de Abadia de Northanger.
Talvez a razão resida no fato de que esse livro foi escrito mais tarde: Jane Austen começou a escrever Razão e Sensibilidade em torno de 1795 (sob o título Elinor e Marianne) e o revisou e publicou em 1811. First Impressions foi iniciado em 1796 e foi publicado em 1813 sob o título de Orgulho e Preconceito, mesmo ano em que a autora finalizou Mansfield Park (que começou a ser idealizado dois anos antes). Ou seja: quando Jane Austen começou a escrever Mansfield Park ela passava dos 35 anos, ao contrário dos anteriores, em cuja trama ela começou a trabalhar por volta dos 20 anos. Não apenas era uma escritora mais madura, mas possivelmente queria desenvolver uma heroína mais próxima de uma mulher real - talvez dela mesma - objetivo que ela chega mais perto de alcançar, possivelmente, com Anne Eliot, de Persuasão.
Márcia, não sabia que você tinha um blog! adorei!
Adriana Zardini
Posted by: Adriana Zardini | 05-01-2010 at 21:43
Obrigada, Adriana, que bom que vc gostou, sou uma analfabeta em termos de ferramentas, mas vou tentando melhorar.
bjs
Posted by: MarciaCL | 05-01-2010 at 22:14
Adorei este seu artigo. Alertou-me para uma nova série de assuntos sobre fanny price e concordo inteiramente consigo quando diz que ela é uma personagem "quase masculina".
Posted by: Clara | 09-02-2010 at 17:14
Obrigada, Clara! Gostaria de incluir o seu link na seção "blogs legais", posso?
Posted by: MarciaCL | 09-02-2010 at 19:47