Como estou na entressafra da pesquisa literária para o doutorado, resolvi ler loucamente um pouco de tudo que eu fui deixando em pilhas ao lado da cabeceira. Pois claro, Jane Austen tinha que estar lá, eu havia comprado uma boa leva de livros dela e de outros autores na Amazon.com e Amazon.fr no início do ano e guardado para um momento mais propício para o lazer. Alguns eu reli, outros, li pela primeira vez em inglês. Foram, numa só tacada, Northanger Abbey, Persuasion, Pride and Prejudice, Sense and Sensibility, Mansfield Park e, de quebra, a biografia da Jane Austen feita pelo sobrinho James Eduard Austen-Leigh, A Memoir of Jane Austen: And Other Family Recollections. Agora que acabo de ler Mansfield Park (o que eu levei mais tempo, propositadamente) estou com Emma.
Mas queria escrever um pouco apenas sobre MP, que era um livro que eu nunca tinha lido, apenas assistido àquela versão do filme de 1999, que havia ficado marcado na minha cabeça (agora eu descobri) por razões equivocadas. Apesar de eu não ser daquelas pessoas que exijam que os filmes sejam absolutamente fiéis aos livros, tem MUITO mais pirão nesse caldo todo que é o romance do que o filme deixava-me supor. Antes de mais nada, trata-se de um romance extremamente extraordinário, é como se ele concentrasse em si todas as facetas que Jane Austen destilava da sociedade de seu tempo, porém de maneira muito precisa, como se antes ela estivesse treinando com arco-e-flecha um tiro ao alvo enfim certeiro.
Cena da dança entre Fanny Price e Henry Crawford na adaptação de 1999 de Patricia Rozema de MP
Para começar, acho no mínimo necessário trazer uma análise de Nancy Armstrong, atual professora de inglês da universidade americana Duke, especializada em literaturas inglesa e americana dos séculos XVIII e XIX. Antes da Duke University, ela dava aulas na Brown University.
No artigo "From desire and domestic Fiction: a political history of the novel" (2000a), Nancy Armstrong faz uma análise da contribuição da literatura para o surgimento de uma nova forma de poder político dentro da sociedade, que foi, na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII, do domínio da mulher sobre o ambiente doméstico. Não vou mencionar todos os autores e autoras citados por ela, senão o post fica ainda mais gigante que o usual. Segundo ela, foi nesse período mais precisamente que a autoridade da mulher sobre questões como a casa, o tempo livre, os procedimentos de corte (ou "relações pré-matrimoniais") e educação dos futuros cidadãos se tornou inquestionável.
"The Rice Portrait of Jane Austen", by Ozias Humphry, oil on canvas, Christie's.
Para Nancy, deve-se considerar que todo um conjunto da literatura inglesa (sobretudo) do século XVIII - uma chamada literatura "feminina", ou seja, cuja é escrita é feita por ou para mulheres - passou a representar um novo modelo de relações sociais permeadas pelo desejo feminino. E, para ela, essa questão do gênero, colocada dessa maneira tão profunda e ampla na cultura desse período tornou capaz a separação por gênero do indivíduo, ou seja, a mulher, através desse mapeamento cerebral literário, muito mais do que através do próprio discurso político da época, passa a ter um discurso próprio e, portanto, inicia a sua existência tal como compreendemos no mundo moderno.
Entretanto, Nancy afirma que apenas no século XIX, através principalmente de Jane Austen e Charlotte Brontë, esse discurso e essa idéia de feminino foi levada ainda mais além de um ideal cultural para uma visão mais realista e mais próxima do desejo feminino. Ou seja: enquanto os escritores anteriores a elas criavam uma espécie de ideal romântico do que deve ser a representação do feminino, estas duas autoras, de modo absolutamente inédito, seguiam por outra via.
Indo mais perto do que seria revolucionário em Austen, lembro uma análise do mesmo assunto (política e subjetividade) em artigo de Clliford Siskin (2000b), em que diz que a preocupação com a problemática romântica da experiência humana era central na obra de Austen que, tendo em mente os modelos pré-estabelecidos pela literatura e pela cultura (em sua obra há inúmeras referências a estes autores, digamos, mais "idealistas"), busca fugir do estereótipo. Em síntese, ela tenta se aproximar de uma vivência literária mais pautada na experiência feminina, contrariando uma determinação político-social que situava a mulher em determinada posição e formato, participando, deste modo, com o jogo de forças políticas de então.
Assim, ele cita o caso da Marianne Dashwood, cuja perspectiva de um "destino extraordinário", semelhante ao das heroínas românticas, transmuda-se, pela vivência, exatamente no inverso, em um destino ordinário. Esse "extraordinário ordinário" como diz Siskin pode ser considerada uma marca de inúmeras personagens (eu arriscaria mencionar Fanny Price, de MP, como possivelmente o exemplo mais cristalizado). Como Austen insistia em uma de suas cartas ao representante do Príncipe Regente, em resposta à sugestão de que deveria fazer um romance sobre pessoas da alta nobreza: "eu devo manter o meu estilo do meu próprio jeito" no qual "três ou quatro famílias em um vilarejo no campo é o objeto exato sobre o qual se deve trabalhar"(2008). As revoluções dramáticas, são, portanto, absolutamente abolidas, é o cotidiano e a passagem do tempo que executam pouco a pouco tais alterações.
Acima, na foto, minha Marianne Dashwood favorita: Kate Winslet, na versão do Ang Lee para Sense e Sensibility, aqui com o seu Willoughby ( Greg Wise)
Por exemplo, quando, ao final de Mansfield Park, Edmund percebe-se apaixonado por Fanny, nem um dia a mais, nem a menos, não há informação exata sobre tal evento, normalmente espetacular, mas considerado neste romance um fato natural, o que reafirma o que os leitores já sabiam desde o início - e a própria Fanny, em seu íntimo (embora tão acostumada às interdições que não acreditava no seu próprio sentimento). Siskin observa que esta é a mesma tática utilizada por Mr. Darcy quando perguntado por Lizzy quando foi o começo do seu amor por ela. Ele diz: "I cannot fix on the hour, or the spot, or the look, or the words, which laid the foundation. It is too long ago. I was in the middle before I knew that I had begun (2000b)". Este "já estava no meio antes de perceber que ele havia começado" pode ser atribuído a inúmeros personagens. Uma perspectiva (eu diria moderna) de temporalidade e da suas reverberações.
Na foto, Fanny Price (Frances O'Connor) e Edmund Bertram (Johnny Lee Miller), na versão (e bota versão nisso!) de MP de Patricia Rozema, de 1999. Imdb
No próximo post vou falar mais do que eu penso da Fanny Price.
Bibliô:
1. 2000a, ARMSTRONG, Nancy. "From desire and domestic Fiction: a political history of the novel". In: MCKEON, Michel.Theory of the novel. pp. 467-475. Baltimore, Johs Hopkins University Press.
2. 2000b, SISKIN, Clifford. "From the historicity of the romantic discourse". In: MCKEON, Michel.Theory of the novel. pp. 566-586. Baltimore, Johs Hopkins University Press.
3. 2008, AUSTEN-LEIGH J.E. A memoir of Jane Austen and other family recollections. Oxford, Oxford Ed. p. 96
Que bom que você está de volta! Adoro seus posts!
Bem, confesso que nunca li a Jane Austen, vi apenas algumas adaptações de seus livros para o cinema, mas ela está na minha lista de "obigatórios" após o doutorado, rs. Agora, tenho certa implicância com essa classificação de "literatura feminina". Acredito que o termo apenas restringe a abrangência de possíveis leitores e reforça uma visão sectária das obras de autoras femininas. Penso que toda e qualquer obra literária (ou melhor, toda obra de arte) seja, acima de tudo, humana, independentemente do gênero e da etnia de seu autor. Mas isso é uma discussão longa, claro, já vi debates bastante acalorados a respeito! Beijo grande.
Posted by: Agnes Rissardo | 15-12-2009 at 18:17
Que bom que você gostou. Antes de você embarcar na leitura de J.Austen, eu recomendo um livro da Virginia Woolf - Um teto só seu - em que ela analisa a situação da mulher escritora, a partir de vários artigos. O texto é de 1928 e é impressionante. Um dos momentos fortes é quando ela tenta imaginar, dia após dia, como teria sido a vida da irmã de Sheakespeare, caso ela tivesse a mesma ambição do irmão. É de uma ironia feroz.
Posted by: Marcia Caetano | 17-12-2009 at 22:32