“A record is a concert without halls, and a museum whose curator is the owner.” Glenn Gould
"Uma gravação é um concerto sem teatro e um museu cujo curador é o proprietário dela".
Há mais de um ano escrevi um post sobre o pianista canadense Glenn Gould e, entre diversas coisitas, falei do vídeo lançado naquela época Genius Within: the inner life of Glenn Gould (alguma coisa como "por dentro do gênio: a vida íntima de GG"). Mas resolvi comentar novamente sobre este vídeo por duas razões. Primeiro, porque naquele post eu falei de tantas outras coisas que este vídeo ficou meio sufocado no meio de muita informação. E, segundo, eu registrava o lançamento do vídeo na época, que só adquiri no ano passado e finalmente arrumei tempo para ver na folga do final de ano de 2011.
Sensacional post sobre GG em inglês com fotos maravilhosas como esta publicadas na Life.
Além disso, naquele post eu achava que estava escrevendo para "os meus pares". Ou seja: aquelas pessoas que, como eu, amam música, são fanáticas por Bach e têm vários CDs do Glenn Gould em casa. Entretanto, eu digo agora que mesmo quem não sabe juntar lá com sí bemol vai amar esse vídeo. O filme é interessantíssimo e, ao revelar um Gould bem humano (quase banal), por isso mesmo o endeusa. Um cara comum, com um talento extraordinário, muita disciplina e um tanto de automarketing. Assim os canadenses Peter Raymond e Michele Hozer, autores do filme, desejam que pensemos sobre Gould.
Glenn Gould com sua mitológica cadeira que ele levava aos concertos. Uma das manias para chamar a atenção?
O filme conta a vida deste que foi o mais pop de todos os pianistas (bem antes de Lang Lang blogar junto com seus fãs), pessoa solitária (era filho único e sua mãe tinha mais de 40 anos quando ele nasceu) e com um charme masculino justamente equiparado em diversos depoimentos do filme à James Dean. Além de trazer, pela primeira vez, o depoimento de Cornelia Foss, a esposa do maestro Lukas Foss que deixou o marido e se mudou com filhos e tudo para o Canadá para morar quatro anos com Gould. É dos filhos dela um dos momentos mais tocantes do filme. Ao contrário da imagem de eremita mal-humorado e recluso, eles revelam um Glenn Gould gentil, carinhoso e dedicado - a filha de Cornelia chega a ficar com os olhos cheios de lágrimas ao se lembrar do momento em que eles se separaram.
Gould e Cornelia Foss, no maior "lóve", antes da tempestade. Foto de divulgação do filme (Press Kit aqui).
Aliás, é comentado no filme que as manias de Gould (usar casaco e luvas mesmo no verão, nunca cumprimentar uma pessoa com um aperto de mãos, levar sua própria cadeira velha para sentar durante os concertos, pedir que a platéia não aplauda etc etc) não passavam de um "golpe de marketing". Glenn Gould queria vender CDs e teria criado essa imagem de gênio excêntrico para aumentar as vendagens. Será? O fato é que, no final, Cornelia Foss o abandona e volta para o marido, pois diz que ele se tornou tão excêntrico que ela não conseguia mais encontrar o homem por quem havia se apaixonado.
Um interessante caso de como nós finalmente nos tornamos as criaturas que passamos a vida tentando ser e, quando tentamos ser nós mesmos, é tarde demais.
Recomendo essa matéria do New York Times sobre o filme, em inglês.
Um filme lindo, lindo, lindo sobre alguém que, de fato, era bem humano.
E, não podia deixar de comentar o verdadeiro ATAQUE DE PELANCA do Leonard Bernstein, falando à platéia antes do concerto de Glenn Gould de abril de 1962, no Carnegie Hall, em que Bernstein era o regente e fez questão de mencionar que ele não concordava com a opinião do solista quanto à execução do Concerto para Piano de Brahms, mas que o regeria assim mesmo, em respeito à platéia (!!!!!). Tudo bem que a gente sabe que esses caras tinham um EGO do tamanho do Pão de Açúcar, mas achei isso muito feio do Leonard Bernstein, tsk, tsk, tsk. Aqui um vídeo do discurso dele na ocasião: